Não sei se todos os homens são iguais. Mas nas primeiras horas do novo ano, conhecer um diferente de todos os que já conheci, foi um dos meus três desejos na hora de pular as três ondas na beira do mar.
A água fria e aconchegante da água salgada misturada com o vento forte do nordeste, transformava em magia aquele momento.
Minha amiga, que não acredita nessas superstições, ficou admirando o mar um pouco mais ao longe. Uma banda de frevo, animava aquelas horas que se estendiam além da contagem regressiva para o início do novo ano.
— Você pode segurar pra mim ? — tive que sair dos devaneios de desejos, ao ouvir uma voz ao meu lado.
Voltei meu rosto para o lado esquerdo, buscando seguir a direção dos meus ouvidos, e deparei com uma muleta bem perto de mim.
— Quero entrar rapidinho na água, consigo ir devagar, mas não dá para molhar isso — um rapaz de blusa e bermuda brancas explicou, enquanto me oferecia o objeto de madeira.
— Sim — concordei.
Alcancei o que se mostrava para mim com amabilidade, mas um pouco preocupada, soltei minha voz, enquanto ele caminhava lentamente :
— Eu não sei nadar, viu ?
O rapaz nada disse. Parou um pouco à frente, onde permaneceu em silêncio, talvez fazendo seus pedidos, já que não lhe era possível dar os três pulinhos.
Tudo não levou mais de alguns poucos minutos, o tempo que Cidinha se aproximou de mim para contar alguma coisa interessante, momento em que me distraí com a presença dela, e dei uns dois passos para trás.
Quando voltei meu rosto, o rapaz já estava bem próximo. Tentando manter o equilíbrio enquanto caminhava, ele esticou o braço, pegou a muleta em um movimento rápido, falou alguma coisa com seus olhos e seguiu seu caminho.
Sinceramente, meu cérebro preparado para ouvir um « Obrigado », ficou tão decepcionado quanto eu.
Ele teria ficado magoado por me afastar dele, dificultando o seu acesso ao objeto que lhe ajudava a caminhar?
Quando eu e Cidinha voltamos para nossas cadeiras de praia, ele estava um pouco mais atrás de nós, recostado, ao lado do seu objeto fiel de madeira, numa mesa de plástico, conversando com outros rapazes.
Ao passar por ele, na hora de irmos embora, meu olhar 180 graus percebeu que o rapaz corajoso, capaz de enfrentar os desníveis da areia da praia, as ondas do mar e o vento nordeste desestabilizante dos movimentos, voltava seus olhos para mim, mais uma vez.
Eu, mesmo com vontade de levar meus olhos para ele, fui covarde. Segui, fingindo não perceber e me perguntando: Será que esse também seria igual aos outros?
Como poderia saber, se não dava oportunidade para a resposta. Afinal, para que aconteça algum tipo de troca humana, olhar nos olhos das pessoas é o primeiro passo. E isso eu precisava treinar mais.
— Ele é um gato! — confessou, Cidinha, depois que chegamos no flat que havíamos alugado para o Reveillon na praia. — Por que você deixou passar?
— Foi só um favor que fiz a ele. Depois, nem sei se ele ficou chateado comigo.
— Como assim ? Você segurou a muleta dele em um momento que ele não tinha ninguém para fazer isso, incluindo os colegas que estavam com ele. Se teve que dar mais um ou dois passos para alcançar a muleta na volta, deve estar agradecido por você ter provado que ele é capaz.
Minha amiga sempre via o lado bom de tudo, e isso era uma das razões que nos aproximava cada vez mais.
No dia seguinte, fomos passear pela rua mais animada do lugar. Além dos variados restaurantes típicos, a música se espalhava em diversos pontos levando a alegria e a magia do verão.
Enquanto caminhávamos, eu e cidinha conversávamos e dançávamos ao passar por algum ritmo que movia nossos corpos espontaneamente.
— Olha ali ! — eu chamei a atenção dela.
— Quem ?!
— Ali — eu apontei com a cabeça, segurando meu passo para que visse o que eu estava vendo.
Cidinha fixou os olhos na direção que eu mostrava.
— Aqueles rapazes ali ?
— A muleta, no meio deles!
— Você acha que aquela muleta é daquele rapaz ? — Cidinha inferiu.
— É igual !não muito dista
— Todas as muletas são iguais — continuou, ela, rindo.
— Aquela era diferente — eu tinha certeza. — E era igualzinha a essa.
Escolhemos uma mesa quase em frente a do rapaz da praia, era o nome que dava a ele, enquanto ainda não sabia o verdadeiro.
— Ele olhou pra cá, algumas vezes — observou Cidinha.
— Eu vi, tentei sorrir de volta, mas ele desviou o rosto.
— Não tem garota alguma na mesa com eles. Vai ver que é tímido — concluiu Cidinha rindo.
— Homem tímido ? — inferi rindo também.
A banda começou a tocar uma canção pop, que gosto muito, o que me fez mergulhar naquele momento musical, e esquecer o rapaz da praia.
Estávamos bebendo um coquetel de frutas especial, delicioso, um convite para me libertar e dançar sem me preocupar com olhares. Até que a banda parou umn pouco para descansar.
— Vou ao banheiro — comuniquei à Cidinha.
Continuei dançando e cantando até chegar à porta do toalete. Enquanto aguardava desocupar, me encostei na parede em frente, cantando a minha canção entoada pelo rapaz do violão.
— Também gosto dessa música — eu ouvi uma voz ao meu lado direito.
Virei o rosto devagar. Meus olhos depararam com o mesmo objeto de madeira, com o qual travei algum tipo de relacionamento na praia, no início do novo ano.
Encostado na mesma parede que eu, o rapaz da praia tomou seu lugar ao meu lado e acomodou o objeto de madeira entre nós dois. Ele olhou para mim e continuou a cantar de onde a presença dele repentina havia me deixado sem voz.
Achei graça, e o acompanhei empolgada pela beleza da harmonia naquele momento. Quando acabamos de cantar, rimos, sem saber por quê.
— Vandinho — ele se apresentou.
— Marina — eu continuei.
A porta do banheiro dos homens se abriu, alguém saiu, mas Vandinho não saiu do lugar.
— Tenho a impressão que já nos conhecemos — ele falou me olhando com curiosidade.
— Bem, já estive com uma parte sua na minha mão — afirmei apontando a muleta com meus olhos. — Esse foi o máximo que me aproximei de você.
Ele franziu a testa, tentando buscar em sua memória algo que fizesse sentido.
— Na praia — finalmente ele adivinhou. — Enquanto eu entrava no mar.
Alguém saiu do toalete feminino, mas eu também não notei.
— Eu tenho que ir — ele apontou para o banheiro em frente a ele. — Seria muito você cuidar dela de novo ? — perguntou rindo, me oferecendo o objeto de madeira.
Eu respondi acomodando minha mão com cuidado para que a muleta ficasse segura.
Então percebi, que embora conseguisse apoiar seus dois pés no chão, Vandinho caminhava com certa dificuldade.
Esperei cantando a canção que não saía da minha cabeça. Vandinho voltou, parou em frente a mim, alcançou o objeto de madeira e não deixou que meus olhos fugissem dos dele.
— Como posso te gradecer ?— ele sussurrou.
Sustentando meus olhos nos dele, deixei que ele usasse sua imaginação, ou melhor, seus instintos.
Um homem entrou no banheiro. Uma garota saiu do toalete feminino. Mas nós não notamos.
Atraída pelo brilho intenso de um castanho escuro que ousava me encantar,Vandinho aproximou seu rosto do meu, sem pressa. Apoiou a mão direita na parede acariciou meus cabelos com a esquerda e grudou sua boca na minha. Nossos olhos se fecharam, abrindo espaço para que nossas línguas se sentissem, se tocassem, se embolassem em devaneio frenético, sem vontade de interromper aquela viagem afrodisíaca, até que a vibração daquela energia de nossos corpos, na parede que nos sustentava, derrubou o objeto de madeira no chão. Mas, nada podia nos interromper naquele momento.
Meu olfato jamais esqueceria o aroma de suor exalado da pele do rapaz da praia misturado com o perfume estonteante que ele usava.
Em um tempo que não sou capaz de medir, Vandinho afastou seu rosto uns mínimos centímetros para respirar.
Ele olhou devagar para baixo, eu segui o mesmo ângulo que ele, e avistamos a muleta, imóvel, tentando se recuperar, no chão. Nossos risos incontroláveis tentavam ser discretos, mas nada conseguia nos conter naquele momento.
Ele afastou seu corpo sem sentir, rindo sem parar. Eu, embebida naquela energia, abaixei com cuidado, alcancei a testemunha da nossa aventura de verão e ofereci a ele.
Ele pegou o objeto sem vontade.
— Será que a gente ainda vai se encontrar, por aí ? — os olhos dele continuavam faiscando.
Eu encarei o rapaz da praia. Deixei que minhas pupilas fulminassem as dele. Entreguei minhas palavras ao silêncio, sufocadas pelas nossas bocas entregues a mais um beijo que procurava a resposta.
Foi difícil voltarmos às nossas mesas naquele dia.
Na noite seguinte, e na outra, e em todas as que sucederam na semana daquele verão, nossos risos, carícias, beijos e loucuras marcaram a areia da praia, onde essa história começou.
Somente o mar e a muleta, muito discretos, foram as testemunhas.
Aquele verão me revelou : Nem todos os homens são iguais.
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